domingo, 1 de fevereiro de 2009

Capítulo 2 -

            Eu me via sozinha. Completamente sozinha num mundo que, como meu pai me alertara horas antes, não teria mais paz. Talvez eu pudesse ter pensado em permanecer trancada em casa até eu não poder mais sobreviver. Porque tinha medo de ser morta assim que saísse. Eu pensei na igreja que a minha família freqüentava. Será que havia alguém que tinha ficado também?
            Provavelmente ninguém havia ficado. Eu devia ser a única pessoa em todo o globo que não permitira que a verdade me libertasse. Porque uma vez eu ouvi minha mãe dizer algo parecido com, “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Eu conhecia a verdade. Mas não havia permitido que ela me libertasse, porque eu não acreditava que era verdade.
            Por que, eu me perguntava, eu não aceitei no momento seguinte ao que meu pai terminou de falar sobre como seria a volta de Jesus? Eu estaria lá com a minha família.
            Eu queria apenas ter um pouco mais de conhecimento, saber o que aconteceria a seguir. Saber o que eu podia fazer para me proteger. Eu precisava de alguém ou alguma coisa que me ensinassem o que fazer.
            Deitada no sofá da sala, olhei para cima. Não sabia a quem recorrer.
            - Deus? – talvez fosse o único em quem eu podia pensar. – Você ainda está aqui na terra?
            Se Ele estivesse, por que Ele responderia àquela que sempre o desprezou? Deixei isso de lado e subi para o quarto da minha irmã. Não tinha coragem de tocar suas roupas que estavam deixadas em cima de sua cama. Olhei para sua mesa, onde fazia seus estudos e vi suas fotografias. Uma dela sozinha, uma dela comigo, uma com o namorado, uma com meus pais, uma de toda a família e duas ou três com seus amigos. Todos aqueles haviam ido, menos eu.
            Mexi em seus papéis, cadernos e blocos de anotações. Em cada um deles tinha uma parte da Bíblia escrita. Havia livros que falavam de Deus. Minha irmã sonhava em ser pastora. Sonhava em abrir igrejas por todo o mundo. Eu achava tudo isso uma idiotice. Achava ridículo, perda de tempo. Ela vivia uma vida em santidade e agora estava vivendo a recompensa por ter sido tão fiel.
            Então eu vi um caderno que nunca havia visto junto às suas coisas. Meu nome estava escrito em vermelho na capa do caderno. Eu queria saber o que tinha naquele caderno, mas tinha muito medo. Na capa de trás estava escrito, também em vermelho, “você se verá sozinha e se perguntará: ‘por que não lhes dei ouvidos? Eles só queriam o melhor para mim’”.
            Desci com o caderno de baixo do braço e sentei-me no sofá, tentando conseguir coragem para abri-lo e ver o que minha irmã queria. Eu tinha a sensação de que nunca mais estaria em silêncio: a cada segundo, ouvia-se uma explosão. Barulhos de carros colidindo, aviões caindo em toda a cidade, pessoas gritando desesperadas, helicópteros prontos para resgatar os que sobreviveram ou não foram levados.
            Eu respirei fundo e disse para mim mesma que abriria o caderno.

3 comentários:

Gabriel. disse...

Ok, você me faz viciar em suas palavras e diálogos.

Marina disse...

JESUS! que história é essa? Viciante!
Escreve mais e mais, Maria!

Gabriel. disse...

):